terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Caminhante
Percorro a densidade do universo.
Fluo matéria e vácuo
cortando a escuridão
vestido de silêncio
e sombra.
Os passos me pesam anos,
mas são cada vez mais velozes.
Levo,
oculta,
esta luz
que arde
e pulsa
prestes a explodir
meu ventrículo esquerdo.
(Celso Mendes)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
****************
domingo, 16 de outubro de 2011
Primavera
setembro, quando passa do equinócio
É o mundo que convida o olhar e o ócio
é flora que encontrou tempo propício
Beleza, muito mais que mero indício
desfilando mais leve, doce e dócil
Primavera zelosa, um sacerdócio
que só finda em dezembro, no solstício
Celebrando estação de mais amores
assaltam nossas ruas vivas cores
céu azul, tempo ameno, belos dias
Surgem ninhos, abelhas, girassóis
sensação que eu e o outro somos nós
natureza declama poesias.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Crivo
pretéritos
Mas não entendo umas normalidades:
Se eu consigo, se é mero acaso, se o sonho é crível, se vem descalço, se vou sumindo
numa ampulheta
se foi o vício, a desmaneira, se foi só jogo
subjetivo.
domingo, 18 de setembro de 2011
Vida fácil
ofertam seus serviços e atributos
olhando carros cheios, vários putos
perguntam preço, pedem fantasias
e – regra de mercado – negociam
carícias, taras, posições, minutos
cavalas dadas mostram dentaduras
com hálitos alcoólicos, mentiras
atiçam vaidades como piras
o fim perdoa a usura dos seus meios
sussurros solitários pedem beijo
insatisfeitas lábias à procura
à noite alguns desejos ganham fúria
e tons enrubescidos são desfeitos
de madrugada o nome faz sentido
e a puta assume a máscara que cria
é filha, insulto e mãe da criatura
rebola, entre a cobiça e a água fria
ciente que alma triste não tem cura
mas finge, e qualquer trago lhe alivia
e o dia que alvorece, tão sem culpa,
ofende como toda hipocrisia
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Anatomia de um Rio
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Conserto em dor menor
e nada desse mundo pede escrita
e tudo já se disse, e supra cita
Enquanto nada dói nem me inquieta
agora, enquanto fritam minhas fritas
eu sei que é bem melhor não ser poeta
Silêncio, enquanto a sina não se ingrata
e o tempo não desgosta, nem reluta.
domingo, 15 de maio de 2011
Tempo
é o mesmo que, saudoso, se arrepende
do novo, vendo a glória no horizonte
do velho, desprezado no presente
O tempo, que não sara nem responde
é o mesmo que alivia e se resolve
no novo, quando sonha e voa longe
no velho, quando saca seu revólver
O tempo, que nos bate de porrete
é o mesmo em que o pecado se comete
no novo, quando estende seu tapete
no velho, quando o efêmero derrete
no novo, pois o tempo é sabonete
no velho, porque tempo é um chiclete
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Nêga
pagode ou seresta, quem gosta se achega
Terreiro é da Nêga, que santo contesta?
É deusa imodesta, da sanha e da entrega
Seu colo aconchega a quem goza ou protesta
quem louva ou detesta, inimigo ou colega
paixão louca e cega e quem diz que não presta
leseira mais besta e quem nunca sossega
A Nêga abençoa de prece e folia
mulata alegria nas danças e cantos
libera esse encanto de paz e alforria
aos filhos e filhas, ungidos por tantos
axés e acalantos da Nêga Bahia
de dengo e energia, de todos os santos.
domingo, 10 de abril de 2011
Retrato falado # 3
![]() |
| Andrzej Jurczack |
sexta-feira, 8 de abril de 2011
A cidade
a seus ratos e baratas, sua elite
Requebrando um pé descalço um salto alto
altos brados, vai cantando o novo hit
A cidade pede grana, teme assalto
violenta, e que ninguém desacredite
Litorânea, lá da serra, do planalto
pisa fundo, passa muito do limite
Bebe todas, passa a noite toda insone
e amanhece criticando a vizinhança
A cidade, perna fina e silicone,
quer memória, quer notícia e confiança
Muito embora deixe nome e telefone
a cidade não te espera nem te alcança.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Página (a Leminski)
de bites, não foi cortada
nem sombra deste planeta
provável fazer de tonta
possível fi-la besta
Esta página é pra lida
nem precisa tradução
e não fica sentida
da ditadura do vão
Nos longes do tempo infindo
das sombras da intenção
não se fez pra ser impressa
restará mera impressão
uma imagem refletida
no vídeo, tela-visão.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Estrangeiro

navego
por entre areia e fumaça
a deslizar as lágrimas
e o fogo
dos não olhares.
as águas nas fatigadas asas
buscam teu porto;
comigo
o peso de mágoas,
alguns cacos,
poucos sonhos
e a mudez das pedras pensantes.
palavras
apenas
pegadas
(rastro
de pó
em oceano).
a ti,
que me esperas
e me desconheces,
ofertar-te-ei
o meu mais belo silêncio
e este vazio onde descanso
para partilharmos
sós.
(Celso Mendes)
Memórias à Beira de um Estopim
.
terça-feira, 22 de março de 2011
Tentativas

tenho estado nestes lençóis
com alguns anjos
com mil demônios
milhões de línguas
unhas, unhas, unhas
e são várias as cicatrizes
de lembranças mal dormidas
carcomidas em amanheceres
plúvios
carrego o peso desta loucura
e arrasto os mesmos olhos nas costas
das noites insones
dos sonhos vermelhos
do sangue
da solitária lágrima
do sêmen
mas a vigília
espera
sempre
a noite
se repetir
até que a viagem se complete
(Celso Mendes)
domingo, 20 de março de 2011
Pequenos defeitos
há tempos não peno sonhando-me o eleito
exceto uns senões sou até bom sujeito
tirante o sem jeito até sou mais ou menos
o réu mais direito a mim mesmo condeno
confuso e sereno confesso e suspeito
beirando ao ingênuo meu caos é conceito
demais contrafeito do próprio veneno
sou juras e juros cobrados na fonte
desculpas aos montes e vozes tão duras
refém da censura que vê no horizonte
no meio da ponte meu salto procura
que a própria paúra por fim se amedronte
e um verso desponte de cada fratura
quarta-feira, 16 de março de 2011
CACHOEIRAR
a pedra
a água
a pedra
a água
a pedra
a água
te limpar
te energizar
tanto dentro e tanto fora
vá cachoeirar
xuááááá xuáááá
deixar as milhões de línguas
da cachoeira te beijar.
Xuáááaá´xuáááá
Secar e cessar essa secura.
Molhar molhar e brotar.
Pra cascata
Casca fora desse forno
Isso mata
‘’bora pra mata.
Cachoeira,como vaza da vulva da Natureza.
Cachoeirar-se
Energia que não se consegue na Light nem nos bytes.
Cachoeirar-se
Positivahumanamente
Energizado.
Outro dia de hoje
notado pra futuros calendários
Um dentre tantos outros, ordinário
na média e sem remédio – já perdido
(é madrugada, amigo, nada nega...
não sinta ansiedade nem tristeza)
A noite é mais culpada quando parte
o céu em cinza, anil e cor-de-rosa
A noite é sintonia mais dolosa
plantando seu the end em cada start
(é madrugada e tudo é permitido
mas cada passo é falso e vigiado)
É madrugada, amigo, na bodega
E as cobras que se escondam pelos cantos
Aqui são todos sóbrios, sábios, santos
E não se quebram copos, tratos, regras
(é madrugada e cedo sem apartes
Que o dia já vem vindo renovado)
quarta-feira, 9 de março de 2011
Vagando
Sozinho e repetindo o descompasso
O mau humor lotou meu pouco espaço
Fiquei aqui sem sono nem saída
Sobrei, pior, rastejo em minha vida
E caravanas ladram quando eu passo
Memórias promovendo um panelaço
Pedindo a direção que foi perdida
Fiquei com microondas, frigobar
E a cada dia mais roto e largado
Querendo e tendo medo de encontrá-la
Só eu, sem lado ou voz, sem vez nem par
Sofrendo e tendo dó do meu estado
Vagando à noite neste quarto-e-sala.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Classe
visão perfeita, mais que lindos, brilham sábios
Aqueles lábios, ah, meu Deus, aqueles lábios
quase me fazem implorar por caridade
Então me afogo no oceano que me invade
como um tsunami de desejos buliçosos
Sonho mil beijos nesses lábios tão gostosos
mas confessar-me a uma deusa eu hei? Quem há-de?
E me demoro contemplando aquela face
querendo o enlace em minha noite eu a suponho
Como se bem perto estivesse e eu respirasse
sentindo o cheiro de sua pele, e segue o sonho
noutros caminhos, de seu corpo à sua classe
e cedo ou tarde o quanto quero inda proponho.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Procura da Poesia
| Coleóptero - foto: Rafael Nolli |
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Gêmeas
E o tom alheio desse cinza-exato
Porque nos bustos levam mesmo anseio
E seus receios não se aceitam fato
É que perpassam lindas nesses meios
feitos de arreios, dos mais vis contratos
E desacatam livres, sem rodeios,
Os tantos freios dos eternos chatos
Porque têm olhos que colorem tudo
Porque são várias e percebem mundos
E são enormes suas forças fêmeas
Dizem tão claro que me deixam mudo
Enxergam tanto que jamais confundo
São tão diversas que parecem gêmeas.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
A janela
- se eu te saltar
fodeu?" - Giovani Iemini
Quando um corpo passa e salta
pra depois do esquecimento
(toda janela é tão alta
que nem sabe do cimento)
Um que rompe grade e vida
muito cedo e muito tarde
(toda janela acredita
na coragem do covarde)
Quem se apoia e vai embora
encarar o precipício
(toda janela é pra fora
e do jeito mais difícil)
O que pula, quer-se morto,
tanto conta quanto aborta
(toda janela olha torto
pra quem não prefere a porta)
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Completo
Decerto são certezas e conflito
Caminha exuberante como um mito
e em cada traço afasta o caricato
Seu corpo expressionista é forma e fato
E a natureza planta um olho aflito
Nas tintas que lhe escapam como um grito
Liberto de vergonhas ou recato
Repleto de passados e devires
Carrega um trovoar e um arco-íris
Um lustro de medalha e seu reverso
Reflete força e dom de ser completo
Como as vinte e seis letras no alfabeto
Como um soneto em seus quatorze versos.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Nem sei se tanto
interrogação
um biltre, o esquisito
que somos e são.
e no alquebrado
o susto, o receio
que quase na mão.
um tormento, um estrago
uma ilha, um tufão
o boneco biruta
que somos ou não.
ou só a metade
ou só um pedaço
ou só a intenção.
sábado, 29 de janeiro de 2011
CERVEJA-SE
Se o cidadão não
Se Cervejasse
Em suas sexta-feiríces
Em suas sabadíces
Em suas dominguices
...
Mais uma breja
Na mesa
cervagelar essa hot-síssima peleja
Da cabeça.
TIN TIN O sacrossanto ritual de cervejar-se
Dependência
depende do ido
depende de sim
porque tudo em mim
mais eco ruído
me sobra aos ouvidos
porque me depende
no tempo e no espaço
porque vida em frente
no vento e no braço
porque sou semente
daquilo que nasço
dependo de tudo
e tudo por fim
também dependente
de muito de mim
domingo, 23 de janeiro de 2011
Noite insone
você cantou, dançou, bebeu?
Passou frio e passou fome
soube que o filho era seu?
Foi subida inspiração
fogo mandado do céu?
Em sua última noite insone
o que foi que aconteceu?
Foi repetindo a rotina
foi naquela sexta-feira?
Foi delirando sozinha
foi curando a bebedeira?
Foi brigando com a vizinha
foi vestida de enfermeira?
Em sua última noite insone
o que lhe acontecera?
Foi dia de casamento
o romance te prendia?
Comemorou o espetáculo
foi doença na família?
Desmoronou o barraco
engravidaram sua filha?
Em sua última noite insone
o que é que acontecia?
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Entropia

falo num idioma que entende noites
e dialoga com estrelas
meu dizer não é meu, é do universo
pois não sou de mim ou de ninguém
fui gerado para romper fronteiras
e só agora me descobri
busco a magia escondida em cumes
e a essência do átomo
semeio e me desfaço lentamente
o risco na pele é um sinal
eu sinto
mudo a cada segundo
(Celso Mendes)
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Mínimas III
inquietude
de urgência a sede
permeio-dia quente
a falta e tão-somente
o quando se concede
***
eterno principio
além do
mais o que
foice foi
já passou.
****
Qual a pista?
para a fuga
outro impasse
noite quente
eu presente.
****
e dois
Dá-me dama
passe em fácil
vez compasso
charme e infâmia.
****
in
e me disse
leve enlace
faça a face
vide em riste
pôs-se passe
sem limite
***
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Mínimas II
de instinto crente
vinha tinta
mistura
espora criatura
consinta
a dente
cura.
****
ciso
sou só refém
do quanto trago
levando a cabo
a mim também
nem só o bem
nem tão culpado
****
pré ferida
era ladeira
refez descida
pôs-me entre tantos
nos pêlos cantos
domingo, 2 de janeiro de 2011
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Mínimas
pois a noite
de sozinha
também sofre
e definha
****
sedna
aflito e relapso
elíptico e ártico
esquecido céu
exausto sepulcro
orbita
****
feito
desenham-se gestos
de voz e conceito
um claro contesto
a puros e eleitos
não raro confesso...
Feito!
****
marés
não vinga o ponto
nem vem a prumo
nunca há desconto
sempre há consumo.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Madrigal
aflita minha tara
o cheiro de horizonte dessa brisa
Achada rima rara
e a desculpa precisa
o dia se enciúma enquanto aclara
Madruga um beijo o dia fica insone
meu corpo sem acordo
A fome fica enorme quando mordo
e o tempo tem teu nome.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
Ventania & Ampulheta
Hoje era apelo, amanhã corrosão.
Cactos na mesa de jantar e cubos de gelo de sobremesa. Ela disse que seria simples, eu quase tive um colapso gengivítico.
Ela disse caramujo; eu desci a praia de tanga, revivendo o doce naufrágio do prisma dívago e cru.
Ela disse espião, eu retomei: hardcore.
Ela me deu sua mão, eu disse: e agora?
Tudo melhorou com o outono, pois estrelas cadentes não têm dormideiras. A nave respondeu meus remendos (usei bandana e fogos de artifício).
Roí a neve e o leme, depois embarquei no rasante do trilho. O trilho não termina.
Isso é um poema até que provem que é um pedido de Habeas Corpus.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Fugazes
sobre verdades ocultas.
Escrevo do falso brilho de estrelas cadentes
como rochas riscadas nos olhos
que passam
fugazes
vorazes
sedentas
de fogo
de cinzas
e pó.
(Celso Mendes)
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Chiclete de Aluguel
Lá perto das colunas energizadas onde não foi.O verdugo que quando chora se questiona. Se é lugar insalubre se ilude. A mosca passa pelos ouvidos. Quando a queima-roupa não há perigo. Copos de água na mesa de metal. E a goteira. E a figueira. Carnaval dos delinqüentes.Um amontoado de coisas e coisa alguma.Se o tapete persa virou poeira. Embaixo uma voz. E um esqueça. Encima uma noz despencada. No teto rachaduras de papel alumínio. E uma queixa. Uma viela.E O detetive dos insones fumando um cigarro de palha desfigurado. Paragem de neblina. O fim da esquina com prédios semi-apagados. Uma gota de orvalho na orelha.Pegadas que acabam num relógio na sarjeta. Ruga.Negando a vantagem, a trepadeira ígnea subindo o muro horizontal. Feito sussurro inaudível, cicatriz broxa, tumescência da visão. Rompendo o Ártico das falanges desérticas, esquecidas num embrulho da paisagem, tufão.A leva de penugens e misticismos.A caixa que guarda o inseto.O pirata calado numa bóia, por trás da dimensão do oceano rouco.A assinatura bem de leve porque não tem nome.Precipício da porta de saída.Noir.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
do livro comerciais de metralhadora

...
Orno
tua
Oferto
(revivo tuas
reescrevendo o
Selo
um buraco é o teu
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
regulada e partida
que faz alumínio parecer prata
e o barulho formar ilusão intocável
nos dois cristais esmigalhados no teto
da inconsciência
& do espanto
Não fosse a voz de reduto
o real pouco plano
no planar do hemisfério
: estardalhaço inconciso
Essa precisão de luar abridor
da sina assanhada perene
a correnteza dos jeitos
no jeito de uma borboleta abolida
de afirmações e da própria altitude
Salto transcendente entre folias
de ausência
Noção de perder a cabeça para cadeia alugada de um dominó
Uma mente que entra na lente macrocósmica
do pensamento imediato e vão.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Cantinho
e à frigidez da bala
e da agulha
enquanto ao brilho, substância
nenhuma sobra para o descrente
noção que faz o amplo
e o conduz ao que é amplo por ser singelo
construção abnegada de aqui, agora, tempo
sem disparada
ou um grão do que se tenta tocar
do que não vê
e vê a tudo
partilha
um não-reter
fazendo da ótica estertor
do que se esconde
do que é
por orvalhar
e se estender no felpudo do dedo
da esperança
domingo, 25 de julho de 2010
Fronteiras
uma ponte partida...”
(Fernando Pessoa)
tenho navegado sobre duas vidas
duas dimensões
duas fases do tempo
projeções distintas
verdades partidas
mentiras divididas
nesta viagem abstrata
em que a espera
confunde-se com a busca
meu voo é subterrâneo e solitário
eu tenho estado entre dois mundos
entre dois sonhos
entre quatro olhares
trinta e três palavras
infinitas imagens
uma só tristeza
e a única certeza:
do que fui
do que sou
tornar-me-ei
o que me restou
(Celso Mendes)
domingo, 11 de julho de 2010
Jesus
1
Senhor, cantá-lo exige prudência.
Senhor, não: Jesus! Prudência...
Mulheres tremem ao imaginá-lo
e homens se contorcem de medo –
se enfurecem por ti. Por ti são
capazes de tudo, com fúria.
Não os quero diante de minha casa,
ou sobre mim, com suas tochas.
Prudência para não despertá-los,
ajoelhados na primeira fila –
bebendo a palavra suja de kolynos,
encharcada de vinho barato.
2
Estavam equivocados sobre a sua palavra.
Sequer leram os livros. Ouviram
de um profissional, ingênuo do latim:
um animal diante do arado
sendo chicoteado por outro animal:
numa estrada reta, sem cruzamentos.
3
E que não fosse por outro animal.
A palavra em si já trás o equívoco:
abades que excederam no vinho e
se distraíram com ilustrações proibidas;
poetas pequenos, insignificantes,
maus tradutores a serviço do estado.
Para cada povo a palavra tem um peso.
Cada uma, sua carga – nada nos diz algumas:
estão na boca diariamente, já sem sabor,
como chiclete repetidamente mastigado.
Algumas não entendemos.
Outras nossa compreensão estraga.
Estão feridas, cobertas de pus,
muitas sequer foram germinadas.
O equívoco (talvez!) resida no fato de
nenhuma ter saído de sua boca.
Gritam, na rua, em seu nome,
algumas que você sequer conheceu.
4
Quando criança, seu nome pichado no muro –
em neon reluzente, gritando na face das igrejas.
Quando criança, sua marca no quadro-negro,
em adesivos no vidro traseiro dos carros.
Quando criança, sua palavra no rádio,
no pára-choque de pesados caminhões.
Quando criança, sua imagem no quadro:
no quarto de minha avó, um pouco vesgo.
Lembrava um dos generais de Hitler
ou um modelo das propagandas de cigarro.
4
Um homem melhor do que eu,
maior que todos nós juntos.
(O que não é grande coisa,
nem fato de extraordinária façanha)
Um homem, ouso dizer. Apenas isso.
Prudência, o poema exige. E me calo.
*
segunda-feira, 31 de maio de 2010
FIM DE FESTA
ando descartável feito coisa.
No fluxo dos comuns sou mais um
nesse momento as cicatrizes
do misantropo que sou me doí
na memória das palavras.
São caminhos sufocantes de andar
contém o banal a mesma estrada...
cravado farpado na dor
esses dias tão repetidos
me agarram pelos cabelos
encharcando-me na mesmice
a mim, resta-me as doses
maciças que ainda tenho
de bocetas na praça do bom fim.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
A Caixa Preta do Horário Nobre
foto Ricardo Pozzonem sabeis o lado,
terça-feira, 18 de maio de 2010
ins-Piração
o coração
...
Só pegar o papel e caneta;
pra desabar na sua cabeça
o Planeta,
com mala e cuia.
Tem que tá ins-pirado pra suportar o Mundo,
Ins-piradíssimo.
Aliás,
A vida também é uma
ins -
ex-
Piração.
O Amor tamém ins-ex pira.
Eu ins-piro com tudo isso.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Fábula Segunda
ESOFAGITE
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Do Caos a Cana
Bebendo goles de Vida no Boteco do Mundo
Bebendo bebendo goles e goles de Vida
Diversas mesas,
Nada de fronteiras,
,Pessoas diversas
No mesmo Boteco do Mundo
Bebendo goles de Vida.
Há o ânimo
De encher o copo e o corpo de Vida
Até o bico
, De erguer o copo e o corpo cheios de Vida
E brindar e beber com vontade a Vida.
Morreremos bêbados de Vida nesse Boteco do Mundo.
E viverá bêbado por termos vivido o Boteco do Mundo.
2
Não deixem que fechem esse Boteco,o Mundo!
Não deixem que proíbam o consumo dessa bebida,a Vida!
Matheus José Mineiro
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Velha Guarda
[Sacis & Garibaldis] foto: Ricardo Pozzo
