sexta-feira, 3 de maio de 2013

Lançamentos

Amigos, dia 28 de Maio estarei lançamento meu novo livro de poemas, Elefante. No mesmo Bat Canal, lançaremos a coletânea Fórceps: são 4 poetas: Eu, Cássio Amaral, Heleno Álvares e Flávio Offer. Se der, compareçam! Abraços!



quarta-feira, 1 de maio de 2013

poeminha astral

Ficava  um pedacinho do rio Piranga
no vôo das garças e nos mantras das capivaras.
o rio engordava e emagrecia e deitava e escorria no meio da cidadezinha
até eu tinha um pedaço do rio em mim.
sem stress hidrico,eu queria era ir fluindo

sábado, 17 de novembro de 2012

O restinho do feijão tropeiro que comi em curtos poemas.

ás vezes não dá né,
não alimento meu estômago
mas sempre alimento o meu pensamento.
é fato que faço meu feijão tropeiro NO FOGO CEREBRAL
com lascas de perseverança e lascas de toucinho...
almoço minhas idéias
e mineiroso sigo o meu caminho.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quebra-cabeça


Frontispício do livro Elefante, de Rafael Nolli. Anfisbena Editora, 2012


1
Com Super Bonder®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa

(o ar e o uso)

Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas
Largo gesto de asas, premeditado
O olho olha a parede e não vê

Mente quem diz: parece vivo


2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio

(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
   – again and again
sobre uma luz cada vez mais fraca)
             Palavra por palavra
             para por de pé o poema:
             broca em busca da cárie

            3
            Nada de novo no front
            as palavras de sempre
            sobre nova maquiagem

            como mulher de revista pornô
           : punheta para photoshop

           Nada de novo no front
           o poeta se gabando por
           descobrir terra já cartografada –

           habitada por centenas
           milhares de babacas

domingo, 16 de setembro de 2012

Como chama a cidade



No centro e periferia respiram
baratas, humanos e ratos
os cheiros de cama e mesa

Nos parques, nos condomínios
humanos, baratas, ratos
vigiam os seus parceiros

o reflexo, o tempo, o trânsito

Há postos de gasolina, alvos móveis
barganhas de vários tamanhos
farmácia, desastre, elite
as lendas com seus retratos
os jingles que viram hit
chantagens, zumbidos, deuses
acompanhantes humanos

Há fomes e línguas falam
dos preços, de seus princípios
Concreto contando história
desaba de seus limites

A vida na cidade permanece, parasita
as vindas, vendas e avenidas principais
Os donos e abandonos da cidade.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Ego egoegoegoegoego

Eu sisto   e


Eu resisto e

Eu pito e

Eu repito e

eucalipto

quarta-feira, 23 de maio de 2012

paraty-ando VI


A caiçara fez um  pirão
Eu pirei – e elas pirão –  e eles piraram
todos respiraram
no Pirão de peixe pirado
que deixa o estomago inspirado.
A caiçara fez um pirão,
Uns  Sus pirão.
Outros  ins pirão
E Na Piração do pirão
Transpirou pirou o pirão  res pirão respirou  transpirão
 
2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

"Minha bela Marília, tudo passa
a sorte deste mundo é mal segura" - T. A. Gonzaga

Então, Marília linda, caminhemos
por parques, pelos prados, pelas praias
aproveitemos ovações e vaias
façamos tudo enquanto nós podemos

Conheçamos, Má, meios e os extremos
que os outros todos são nossas cobaias
pegue umas roupas, suas minissaias
não temas nada, pois nós tudo temos

Vivamos juntos como dois canalhas
quem sabe um dia o banco a gente assalta
fugimos ricos pras Ilhas Canárias

e aí, pra sempre é curtição, na flauta
Você, dinheiro e a veia literária
e o resto eu juro que nem me faz falta.

domingo, 25 de março de 2012

Versos num papel

Aqui neste papel eu deixo o agora
E o tempo é meu presente e algum futuro
Transmito o pensamento e me asseguro
Que o pensamento siga tempo a fora

Aqui, papel, chiqueiro em que chafurdo
É onde estou mais vivo e mais inteiro
E o verso é minha música e letreiro
Embora eu siga insano e cego e surdo

Minha esperança plena e o mau agouro
O surto, o senso, o esgoto e meu tesouro
Meu sonho, meu desastre e meu conflito

Tomando forma, fazem-se sujeitos
E eu viro o objeto, e menos que um conceito
Aqui neste papel eu fico escrito.

sábado, 24 de março de 2012

Agouro

O medo que me dá meu olho esquerdo
Enquanto me anuncia outra tragédia
Fobia só pra não morrer de tédio
meu olho preparando para perda

O dia fica estranho, eu fico aéreo
Co a porta da crendice meio aberta
Rangendo como fosse coisa séria
Enquanto a neura observa bem de perto

O risco que me vira pelo avesso
O susto que me prende e me despersa
Pressinto não sabendo se mereço
O mundo gira lento e controverso

Um olho que executa meu seqüestro
Ataca, e cada culpa se confessa
Aguardo decidirem qual o preço
Do quanto deixo escrito em minha testa

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Caminhante


Percorro a densidade do universo.
Fluo matéria e vácuo
cortando a escuridão
vestido de silêncio
e sombra.

Os passos me pesam anos,
mas são cada vez mais velozes.

Levo,
oculta,
esta luz
que arde
e pulsa
prestes a explodir
meu ventrículo esquerdo.


(Celso Mendes)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

****************

veio o P com seu xilique 
veio o A com seu tique 
e veio o Z com seu tac 
abraçar o Homem nesse ataque 

matheusmineiro

domingo, 16 de outubro de 2011

Primavera

Eu sinto como houvesse um reinício
setembro, quando passa do equinócio
É o mundo que convida o olhar e o ócio
é flora que encontrou tempo propício

Beleza, muito mais que mero indício
desfilando mais leve, doce e dócil
Primavera zelosa, um sacerdócio
que só finda em dezembro, no solstício

Celebrando estação de mais amores
assaltam nossas ruas vivas cores
céu azul, tempo ameno, belos dias

Surgem ninhos, abelhas, girassóis
sensação que eu e o outro somos nós
natureza declama poesias.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Crivo

Agora eu entendo todas as peças, todos os encaixes, os desfechos, resultados, letargos
pretéritos
Mas não entendo umas normalidades:
Se eu consigo, se é mero acaso, se o sonho é crível, se vem descalço, se vou sumindo
numa ampulheta
se foi o vício, a desmaneira, se foi só jogo
subjetivo.

domingo, 18 de setembro de 2011

Vida fácil

é noite e microssaias nos passeios
ofertam seus serviços e atributos
olhando carros cheios, vários putos
perguntam preço, pedem fantasias
e – regra de mercado – negociam
carícias, taras, posições, minutos

cavalas dadas mostram dentaduras
com hálitos alcoólicos, mentiras
atiçam vaidades como piras
o fim perdoa a usura dos seus meios

sussurros solitários pedem beijo
insatisfeitas lábias à procura
à noite alguns desejos ganham fúria
e tons enrubescidos são desfeitos

de madrugada o nome faz sentido
e a puta assume a máscara que cria
é filha, insulto e mãe da criatura
rebola, entre a cobiça e a água fria
ciente que alma triste não tem cura
mas finge, e qualquer trago lhe alivia
e o dia que alvorece, tão sem culpa,
ofende como toda hipocrisia

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Anatomia de um Rio

video


Às margens desse rio asfixiado,
habitado pela merda expelida das casas
e o ácido excedente das indústrias,
homens pararam por um instante –
testemunharam seus reflexos no espelho;
outros
velaram toda uma noite atrás de um peixe.

Nessas águas espessas,
violentadas pelo óleo das auto-estradas,
oprimidas pelo caldo dos bueiros,
mulheres lavaram a roupa e as mágoas;
outras se aliaram ao corpo do rio
para ajudar as flores a resistirem ao inverno
e os tomates a se rebelarem contra a seca.

Às margens desse rio viciado,
picado pela agulha dos hospitais,
assaltado pela indigestão dos restaurantes,
meninos caçaram animais que por ali se aventuravam,
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro senão do campo que percorria.



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Conserto em dor menor

Agora me descansam as canetas
e nada desse mundo pede escrita
e tudo já se disse, e supra cita

Enquanto nada dói nem me inquieta
agora, enquanto fritam minhas fritas
eu sei que é bem melhor não ser poeta

Silêncio, enquanto a sina não se ingrata
e o tempo não desgosta, nem reluta.

domingo, 15 de maio de 2011

Tempo

O tempo, que atravessa e queima pontes
é o mesmo que, saudoso, se arrepende
do novo, vendo a glória no horizonte
do velho, desprezado no presente

O tempo, que não sara nem responde
é o mesmo que alivia e se resolve
no novo, quando sonha e voa longe
no velho, quando saca seu revólver

O tempo, que nos bate de porrete
é o mesmo em que o pecado se comete
no novo, quando estende seu tapete

no velho, quando o efêmero derrete
no novo, pois o tempo é sabonete
no velho, porque tempo é um chiclete

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Nêga

A Nêga não nega presença na festa
pagode ou seresta, quem gosta se achega
Terreiro é da Nêga, que santo contesta?
É deusa imodesta, da sanha e da entrega

Seu colo aconchega a quem goza ou protesta
quem louva ou detesta, inimigo ou colega
paixão louca e cega e quem diz que não presta
leseira mais besta e quem nunca sossega

A Nêga abençoa de prece e folia
mulata alegria nas danças e cantos
libera esse encanto de paz e alforria

aos filhos e filhas, ungidos por tantos
axés e acalantos da Nêga Bahia
de dengo e energia, de todos os santos.

domingo, 10 de abril de 2011

Retrato falado # 3

Andrzej Jurczack



de virtude, apenas o ódio comercializável, o amor pela pólvora do revólver & o milagroso sêmen de seu ventre metálico: concepção inversa que silencia as maternidades & empoeira os berços; e, por que não, alegria em compreender-se necessário entre os homens que sempre estão refletindo além da epiderme: nele, tudo se dava à flor da pele & nada podia ser menos do que cacto para deitar seu corpo cansado


sexta-feira, 8 de abril de 2011

A cidade

A cidade cede luzes, cede asfalto
a seus ratos e baratas, sua elite
Requebrando um pé descalço um salto alto
altos brados, vai cantando o novo hit

A cidade pede grana, teme assalto
violenta, e que ninguém desacredite
Litorânea, lá da serra, do planalto
pisa fundo, passa muito do limite

Bebe todas, passa a noite toda insone
e amanhece criticando a vizinhança
A cidade, perna fina e silicone,

quer memória, quer notícia e confiança
Muito embora deixe nome e telefone
a cidade não te espera nem te alcança.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Página (a Leminski)

Esta página, por exemplo
de bites, não foi cortada
nem sombra deste planeta
provável fazer de tonta
possível fi-la besta

Esta página é pra lida
nem precisa tradução
e não fica sentida
da ditadura do vão

Nos longes do tempo infindo
das sombras da intenção
não se fez pra ser impressa
restará mera impressão
uma imagem refletida
no vídeo, tela-visão.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Estrangeiro


navego
por entre areia e fumaça
a deslizar as lágrimas
e o fogo
dos não olhares.

as águas nas fatigadas asas
buscam teu porto;

comigo
o peso de mágoas,
alguns cacos,
poucos sonhos
e a mudez das pedras pensantes.

palavras
apenas
pegadas
(rastro
de pó
em oceano).

a ti,
que me esperas
e me desconheces,
ofertar-te-ei
o meu mais belo silêncio
e este vazio onde descanso
para partilharmos
sós.

(Celso Mendes)

Memórias à Beira de um Estopim

                        XI
    27/12/03


Estive calado, pois temia denunciar minha intenção de versejar alto como os Andes – enquanto que minha voz rastejaria meu canto como uma serpente.

Trancado em mim mesmo, deixei meu verso crescer interiormente e assim pude evitar de interiorizá-lo com o padrão exterior.

Neguei à minha boca os beijos – e, com o não-uso da palavra, saboreei o silêncio inconformado de todas as bocas...

Agora, eu repilo esse silêncio antropofágico que banqueteia de meu peito aberto e empresto a minha voz à de todos vós...

                                          espero que ela (vossa voz) passe em meu verso de forma tão clara que, num resvalar de olhos, todos percebam a minha intenção – e as criancinhas que mal sabem ler, levem à mão a boca, segurando um sorriso, sem espanto ou dúvida... e o firmamento por sobre as suas cabeças se alarguem até que seus pensamentos e o horizonte se unam em um único e grande campo...



.

terça-feira, 22 de março de 2011

Tentativas


tenho estado nestes lençóis
com alguns anjos
com mil demônios
milhões de línguas
unhas, unhas, unhas

e são várias as cicatrizes
de lembranças mal dormidas
carcomidas em amanheceres
plúvios

carrego o peso desta loucura
e arrasto os mesmos olhos nas costas
das noites insones
dos sonhos vermelhos
do sangue
da solitária lágrima
do sêmen

mas a vigília
espera
sempre
a noite
se repetir

até que a viagem se complete

(Celso Mendes)

domingo, 20 de março de 2011

Pequenos defeitos

pois eu nunca tive defeitos pequenos
há tempos não peno sonhando-me o eleito
exceto uns senões sou até bom sujeito
tirante o sem jeito até sou mais ou menos

o réu mais direito a mim mesmo condeno
confuso e sereno confesso e suspeito
beirando ao ingênuo meu caos é conceito
demais contrafeito do próprio veneno

sou juras e juros cobrados na fonte
desculpas aos montes e vozes tão duras
refém da censura que vê no horizonte

no meio da ponte meu salto procura
que a própria paúra por fim se amedronte
e um verso desponte de cada fratura

quarta-feira, 16 de março de 2011

CACHOEIRAR

deixar a água
a pedra
a água
a pedra
a água
a pedra
a água
te limpar
te energizar
tanto dentro e tanto fora
vá cachoeirar
xuááááá xuáááá
deixar as milhões de línguas
da cachoeira te beijar.
Xuáááaá´xuáááá

Secar e cessar essa secura.
Molhar molhar e brotar.
Pra cascata
Casca fora desse forno
Isso mata
‘’bora pra mata.

Cachoeira,como vaza da vulva da Natureza.
Cachoeirar-se
Energia que não se consegue na Light nem nos bytes.
Cachoeirar-se
Positivahumanamente
Energizado.

Outro dia de hoje

O dia foi-se tarde sem ter sido
notado pra futuros calendários
Um dentre tantos outros, ordinário
na média e sem remédio – já perdido

(é madrugada, amigo, nada nega...
não sinta ansiedade nem tristeza)

A noite é mais culpada quando parte
o céu em cinza, anil e cor-de-rosa
A noite é sintonia mais dolosa
plantando seu the end em cada start

(é madrugada e tudo é permitido
mas cada passo é falso e vigiado)

É madrugada, amigo, na bodega
E as cobras que se escondam pelos cantos
Aqui são todos sóbrios, sábios, santos
E não se quebram copos, tratos, regras

(é madrugada e cedo sem apartes
Que o dia já vem vindo renovado)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Vagando

Restou-me esta tristeza tão doída
Sozinho e repetindo o descompasso
O mau humor lotou meu pouco espaço
Fiquei aqui sem sono nem saída

Sobrei, pior, rastejo em minha vida
E caravanas ladram quando eu passo
Memórias promovendo um panelaço
Pedindo a direção que foi perdida

Fiquei com microondas, frigobar
E a cada dia mais roto e largado
Querendo e tendo medo de encontrá-la

Só eu, sem lado ou voz, sem vez nem par
Sofrendo e tendo dó do meu estado
Vagando à noite neste quarto-e-sala.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Classe

Aqueles olhos, como fitos na verdade
visão perfeita, mais que lindos, brilham sábios
Aqueles lábios, ah, meu Deus, aqueles lábios
quase me fazem implorar por caridade

Então me afogo no oceano que me invade
como um tsunami de desejos buliçosos
Sonho mil beijos nesses lábios tão gostosos
mas confessar-me a uma deusa eu hei? Quem há-de?

E me demoro contemplando aquela face
querendo o enlace em minha noite eu a suponho
Como se bem perto estivesse e eu respirasse

sentindo o cheiro de sua pele, e segue o sonho
noutros caminhos, de seu corpo à sua classe
e cedo ou tarde o quanto quero inda proponho.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Procura da Poesia

Coleóptero - foto: Rafael Nolli


Poema # 3
                                   para Flávio Offer

Procurando muito há de se encontrar.
Entre os homens que por um segundo
se esquecem de sua natureza e se atracam
– por uma palavra mal acentuada
         ou um gol anulado –
é o palpite mais razoável.

Talvez nem precise ir longe demais:

nada de chafurdar na lama –
onde o esgoto urbano descansa;

nada de vasculhar o sovaco da noite –
onde piolhos fugitivos da púbis se exilam:

por certo é ir longe demais,
não vale a viagem ou a sola de sapato gasta.

Talvez ela esteja por aí, na rua,
passando de chapéu a esconder o rosto,
maquiagem carregada mentindo a face;
ou oculta em uma casa distante e triste:
bastaria chamar no interfone e solicitar.

Quem sabe esteja ao nosso lado
(todo esse tempo ao nosso lado!)
sentada em um ponto de ônibus
aguardando uma condução que lhe dê fuga;
ou em uma mesa de bar
pedindo à saideira ou um psiquiatra.

Quem sabe esteja do outro lado da rua
(ao alcance de um chamado ou de um assobio)
indignada com os preços da carne;
ou esteja um lance de escada, andar acima –
lamentando a paisagem obstruída.

Procurando bem, com esmero,
sem trégua ou descanso,
tendo por certo que encontrada hoje
a busca recomeça amanhã.


do livro comerciais de metralhadora

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Gêmeas

Porque protestam contra todo o feio
E o tom alheio desse cinza-exato
Porque nos bustos levam mesmo anseio
E seus receios não se aceitam fato

É que perpassam lindas nesses meios
feitos de arreios, dos mais vis contratos
E desacatam livres, sem rodeios,
Os tantos freios dos eternos chatos

Porque têm olhos que colorem tudo
Porque são várias e percebem mundos
E são enormes suas forças fêmeas

Dizem tão claro que me deixam mudo
Enxergam tanto que jamais confundo
São tão diversas que parecem gêmeas.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A janela

"Janela, espelho meu
- se eu te saltar
fodeu?" - Giovani Iemini



Quando um corpo passa e salta
pra depois do esquecimento
(toda janela é tão alta
que nem sabe do cimento)

Um que rompe grade e vida
muito cedo e muito tarde
(toda janela acredita
na coragem do covarde)

Quem se apoia e vai embora
encarar o precipício
(toda janela é pra fora
e do jeito mais difícil)

O que pula, quer-se morto,
tanto conta quanto aborta
(toda janela olha torto
pra quem não prefere a porta)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Completo

Seus olhos impossíveis no retrato
Decerto são certezas e conflito
Caminha exuberante como um mito
e em cada traço afasta o caricato

Seu corpo expressionista é forma e fato
E a natureza planta um olho aflito
Nas tintas que lhe escapam como um grito
Liberto de vergonhas ou recato

Repleto de passados e devires
Carrega um trovoar e um arco-íris
Um lustro de medalha e seu reverso

Reflete força e dom de ser completo
Como as vinte e seis letras no alfabeto
Como um soneto em seus quatorze versos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Nem sei se tanto

um frasco, o espanto
interrogação
um biltre, o esquisito
que somos e são.

e no alquebrado
o susto, o receio
que quase na mão.

um tormento, um estrago
uma ilha, um tufão
o boneco biruta
que somos ou não.

ou só a metade
ou só um pedaço
ou só a intenção.