terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Caminhante


Percorro a densidade do universo.
Fluo matéria e vácuo
cortando a escuridão
vestido de silêncio
e sombra.

Os passos me pesam anos,
mas são cada vez mais velozes.

Levo,
oculta,
esta luz
que arde
e pulsa
prestes a explodir
meu ventrículo esquerdo.


(Celso Mendes)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

****************

veio o P com seu xilique 
veio o A com seu tique 
e veio o Z com seu tac 
abraçar o Homem nesse ataque 

matheusmineiro

domingo, 16 de outubro de 2011

Primavera

Eu sinto como houvesse um reinício
setembro, quando passa do equinócio
É o mundo que convida o olhar e o ócio
é flora que encontrou tempo propício

Beleza, muito mais que mero indício
desfilando mais leve, doce e dócil
Primavera zelosa, um sacerdócio
que só finda em dezembro, no solstício

Celebrando estação de mais amores
assaltam nossas ruas vivas cores
céu azul, tempo ameno, belos dias

Surgem ninhos, abelhas, girassóis
sensação que eu e o outro somos nós
natureza declama poesias.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Crivo

Agora eu entendo todas as peças, todos os encaixes, os desfechos, resultados, letargos
pretéritos
Mas não entendo umas normalidades:
Se eu consigo, se é mero acaso, se o sonho é crível, se vem descalço, se vou sumindo
numa ampulheta
se foi o vício, a desmaneira, se foi só jogo
subjetivo.

domingo, 18 de setembro de 2011

Vida fácil

é noite e microssaias nos passeios
ofertam seus serviços e atributos
olhando carros cheios, vários putos
perguntam preço, pedem fantasias
e – regra de mercado – negociam
carícias, taras, posições, minutos

cavalas dadas mostram dentaduras
com hálitos alcoólicos, mentiras
atiçam vaidades como piras
o fim perdoa a usura dos seus meios

sussurros solitários pedem beijo
insatisfeitas lábias à procura
à noite alguns desejos ganham fúria
e tons enrubescidos são desfeitos

de madrugada o nome faz sentido
e a puta assume a máscara que cria
é filha, insulto e mãe da criatura
rebola, entre a cobiça e a água fria
ciente que alma triste não tem cura
mas finge, e qualquer trago lhe alivia
e o dia que alvorece, tão sem culpa,
ofende como toda hipocrisia

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Anatomia de um Rio

video


Às margens desse rio asfixiado,
habitado pela merda expelida das casas
e o ácido excedente das indústrias,
homens pararam por um instante –
testemunharam seus reflexos no espelho;
outros
velaram toda uma noite atrás de um peixe.

Nessas águas espessas,
violentadas pelo óleo das auto-estradas,
oprimidas pelo caldo dos bueiros,
mulheres lavaram a roupa e as mágoas;
outras se aliaram ao corpo do rio
para ajudar as flores a resistirem ao inverno
e os tomates a se rebelarem contra a seca.

Às margens desse rio viciado,
picado pela agulha dos hospitais,
assaltado pela indigestão dos restaurantes,
meninos caçaram animais que por ali se aventuravam,
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro senão do campo que percorria.



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Conserto em dor menor

Agora me descansam as canetas
e nada desse mundo pede escrita
e tudo já se disse, e supra cita

Enquanto nada dói nem me inquieta
agora, enquanto fritam minhas fritas
eu sei que é bem melhor não ser poeta

Silêncio, enquanto a sina não se ingrata
e o tempo não desgosta, nem reluta.

domingo, 15 de maio de 2011

Tempo

O tempo, que atravessa e queima pontes
é o mesmo que, saudoso, se arrepende
do novo, vendo a glória no horizonte
do velho, desprezado no presente

O tempo, que não sara nem responde
é o mesmo que alivia e se resolve
no novo, quando sonha e voa longe
no velho, quando saca seu revólver

O tempo, que nos bate de porrete
é o mesmo em que o pecado se comete
no novo, quando estende seu tapete

no velho, quando o efêmero derrete
no novo, pois o tempo é sabonete
no velho, porque tempo é um chiclete

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Nêga

A Nêga não nega presença na festa
pagode ou seresta, quem gosta se achega
Terreiro é da Nêga, que santo contesta?
É deusa imodesta, da sanha e da entrega

Seu colo aconchega a quem goza ou protesta
quem louva ou detesta, inimigo ou colega
paixão louca e cega e quem diz que não presta
leseira mais besta e quem nunca sossega

A Nêga abençoa de prece e folia
mulata alegria nas danças e cantos
libera esse encanto de paz e alforria

aos filhos e filhas, ungidos por tantos
axés e acalantos da Nêga Bahia
de dengo e energia, de todos os santos.

domingo, 10 de abril de 2011

Retrato falado # 3

Andrzej Jurczack



de virtude, apenas o ódio comercializável, o amor pela pólvora do revólver & o milagroso sêmen de seu ventre metálico: concepção inversa que silencia as maternidades & empoeira os berços; e, por que não, alegria em compreender-se necessário entre os homens que sempre estão refletindo além da epiderme: nele, tudo se dava à flor da pele & nada podia ser menos do que cacto para deitar seu corpo cansado


sexta-feira, 8 de abril de 2011

A cidade

A cidade cede luzes, cede asfalto
a seus ratos e baratas, sua elite
Requebrando um pé descalço um salto alto
altos brados, vai cantando o novo hit

A cidade pede grana, teme assalto
violenta, e que ninguém desacredite
Litorânea, lá da serra, do planalto
pisa fundo, passa muito do limite

Bebe todas, passa a noite toda insone
e amanhece criticando a vizinhança
A cidade, perna fina e silicone,

quer memória, quer notícia e confiança
Muito embora deixe nome e telefone
a cidade não te espera nem te alcança.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Página (a Leminski)

Esta página, por exemplo
de bites, não foi cortada
nem sombra deste planeta
provável fazer de tonta
possível fi-la besta

Esta página é pra lida
nem precisa tradução
e não fica sentida
da ditadura do vão

Nos longes do tempo infindo
das sombras da intenção
não se fez pra ser impressa
restará mera impressão
uma imagem refletida
no vídeo, tela-visão.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Estrangeiro


navego
por entre areia e fumaça
a deslizar as lágrimas
e o fogo
dos não olhares.

as águas nas fatigadas asas
buscam teu porto;

comigo
o peso de mágoas,
alguns cacos,
poucos sonhos
e a mudez das pedras pensantes.

palavras
apenas
pegadas
(rastro
de pó
em oceano).

a ti,
que me esperas
e me desconheces,
ofertar-te-ei
o meu mais belo silêncio
e este vazio onde descanso
para partilharmos
sós.

(Celso Mendes)

Memórias à Beira de um Estopim

                        XI
    27/12/03


Estive calado, pois temia denunciar minha intenção de versejar alto como os Andes – enquanto que minha voz rastejaria meu canto como uma serpente.

Trancado em mim mesmo, deixei meu verso crescer interiormente e assim pude evitar de interiorizá-lo com o padrão exterior.

Neguei à minha boca os beijos – e, com o não-uso da palavra, saboreei o silêncio inconformado de todas as bocas...

Agora, eu repilo esse silêncio antropofágico que banqueteia de meu peito aberto e empresto a minha voz à de todos vós...

                                          espero que ela (vossa voz) passe em meu verso de forma tão clara que, num resvalar de olhos, todos percebam a minha intenção – e as criancinhas que mal sabem ler, levem à mão a boca, segurando um sorriso, sem espanto ou dúvida... e o firmamento por sobre as suas cabeças se alarguem até que seus pensamentos e o horizonte se unam em um único e grande campo...



.

terça-feira, 22 de março de 2011

Tentativas


tenho estado nestes lençóis
com alguns anjos
com mil demônios
milhões de línguas
unhas, unhas, unhas

e são várias as cicatrizes
de lembranças mal dormidas
carcomidas em amanheceres
plúvios

carrego o peso desta loucura
e arrasto os mesmos olhos nas costas
das noites insones
dos sonhos vermelhos
do sangue
da solitária lágrima
do sêmen

mas a vigília
espera
sempre
a noite
se repetir

até que a viagem se complete

(Celso Mendes)

domingo, 20 de março de 2011

Pequenos defeitos

pois eu nunca tive defeitos pequenos
há tempos não peno sonhando-me o eleito
exceto uns senões sou até bom sujeito
tirante o sem jeito até sou mais ou menos

o réu mais direito a mim mesmo condeno
confuso e sereno confesso e suspeito
beirando ao ingênuo meu caos é conceito
demais contrafeito do próprio veneno

sou juras e juros cobrados na fonte
desculpas aos montes e vozes tão duras
refém da censura que vê no horizonte

no meio da ponte meu salto procura
que a própria paúra por fim se amedronte
e um verso desponte de cada fratura

quarta-feira, 16 de março de 2011

CACHOEIRAR

deixar a água
a pedra
a água
a pedra
a água
a pedra
a água
te limpar
te energizar
tanto dentro e tanto fora
vá cachoeirar
xuááááá xuáááá
deixar as milhões de línguas
da cachoeira te beijar.
Xuáááaá´xuáááá

Secar e cessar essa secura.
Molhar molhar e brotar.
Pra cascata
Casca fora desse forno
Isso mata
‘’bora pra mata.

Cachoeira,como vaza da vulva da Natureza.
Cachoeirar-se
Energia que não se consegue na Light nem nos bytes.
Cachoeirar-se
Positivahumanamente
Energizado.

Outro dia de hoje

O dia foi-se tarde sem ter sido
notado pra futuros calendários
Um dentre tantos outros, ordinário
na média e sem remédio – já perdido

(é madrugada, amigo, nada nega...
não sinta ansiedade nem tristeza)

A noite é mais culpada quando parte
o céu em cinza, anil e cor-de-rosa
A noite é sintonia mais dolosa
plantando seu the end em cada start

(é madrugada e tudo é permitido
mas cada passo é falso e vigiado)

É madrugada, amigo, na bodega
E as cobras que se escondam pelos cantos
Aqui são todos sóbrios, sábios, santos
E não se quebram copos, tratos, regras

(é madrugada e cedo sem apartes
Que o dia já vem vindo renovado)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Vagando

Restou-me esta tristeza tão doída
Sozinho e repetindo o descompasso
O mau humor lotou meu pouco espaço
Fiquei aqui sem sono nem saída

Sobrei, pior, rastejo em minha vida
E caravanas ladram quando eu passo
Memórias promovendo um panelaço
Pedindo a direção que foi perdida

Fiquei com microondas, frigobar
E a cada dia mais roto e largado
Querendo e tendo medo de encontrá-la

Só eu, sem lado ou voz, sem vez nem par
Sofrendo e tendo dó do meu estado
Vagando à noite neste quarto-e-sala.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Classe

Aqueles olhos, como fitos na verdade
visão perfeita, mais que lindos, brilham sábios
Aqueles lábios, ah, meu Deus, aqueles lábios
quase me fazem implorar por caridade

Então me afogo no oceano que me invade
como um tsunami de desejos buliçosos
Sonho mil beijos nesses lábios tão gostosos
mas confessar-me a uma deusa eu hei? Quem há-de?

E me demoro contemplando aquela face
querendo o enlace em minha noite eu a suponho
Como se bem perto estivesse e eu respirasse

sentindo o cheiro de sua pele, e segue o sonho
noutros caminhos, de seu corpo à sua classe
e cedo ou tarde o quanto quero inda proponho.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Procura da Poesia

Coleóptero - foto: Rafael Nolli


Poema # 3
                                   para Flávio Offer

Procurando muito há de se encontrar.
Entre os homens que por um segundo
se esquecem de sua natureza e se atracam
– por uma palavra mal acentuada
         ou um gol anulado –
é o palpite mais razoável.

Talvez nem precise ir longe demais:

nada de chafurdar na lama –
onde o esgoto urbano descansa;

nada de vasculhar o sovaco da noite –
onde piolhos fugitivos da púbis se exilam:

por certo é ir longe demais,
não vale a viagem ou a sola de sapato gasta.

Talvez ela esteja por aí, na rua,
passando de chapéu a esconder o rosto,
maquiagem carregada mentindo a face;
ou oculta em uma casa distante e triste:
bastaria chamar no interfone e solicitar.

Quem sabe esteja ao nosso lado
(todo esse tempo ao nosso lado!)
sentada em um ponto de ônibus
aguardando uma condução que lhe dê fuga;
ou em uma mesa de bar
pedindo à saideira ou um psiquiatra.

Quem sabe esteja do outro lado da rua
(ao alcance de um chamado ou de um assobio)
indignada com os preços da carne;
ou esteja um lance de escada, andar acima –
lamentando a paisagem obstruída.

Procurando bem, com esmero,
sem trégua ou descanso,
tendo por certo que encontrada hoje
a busca recomeça amanhã.


do livro comerciais de metralhadora

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Gêmeas

Porque protestam contra todo o feio
E o tom alheio desse cinza-exato
Porque nos bustos levam mesmo anseio
E seus receios não se aceitam fato

É que perpassam lindas nesses meios
feitos de arreios, dos mais vis contratos
E desacatam livres, sem rodeios,
Os tantos freios dos eternos chatos

Porque têm olhos que colorem tudo
Porque são várias e percebem mundos
E são enormes suas forças fêmeas

Dizem tão claro que me deixam mudo
Enxergam tanto que jamais confundo
São tão diversas que parecem gêmeas.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A janela

"Janela, espelho meu
- se eu te saltar
fodeu?" - Giovani Iemini



Quando um corpo passa e salta
pra depois do esquecimento
(toda janela é tão alta
que nem sabe do cimento)

Um que rompe grade e vida
muito cedo e muito tarde
(toda janela acredita
na coragem do covarde)

Quem se apoia e vai embora
encarar o precipício
(toda janela é pra fora
e do jeito mais difícil)

O que pula, quer-se morto,
tanto conta quanto aborta
(toda janela olha torto
pra quem não prefere a porta)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Completo

Seus olhos impossíveis no retrato
Decerto são certezas e conflito
Caminha exuberante como um mito
e em cada traço afasta o caricato

Seu corpo expressionista é forma e fato
E a natureza planta um olho aflito
Nas tintas que lhe escapam como um grito
Liberto de vergonhas ou recato

Repleto de passados e devires
Carrega um trovoar e um arco-íris
Um lustro de medalha e seu reverso

Reflete força e dom de ser completo
Como as vinte e seis letras no alfabeto
Como um soneto em seus quatorze versos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Nem sei se tanto

um frasco, o espanto
interrogação
um biltre, o esquisito
que somos e são.

e no alquebrado
o susto, o receio
que quase na mão.

um tormento, um estrago
uma ilha, um tufão
o boneco biruta
que somos ou não.

ou só a metade
ou só um pedaço
ou só a intenção.

sábado, 29 de janeiro de 2011

CERVEJA-SE

Ora Veja
Se o cidadão não
Se Cervejasse
Em suas sexta-feiríces
Em suas sabadíces
Em suas dominguices
...
Mais uma breja
Na mesa
cervagelar essa hot-síssima peleja
Da cabeça.

TIN TIN O sacrossanto ritual de cervejar-se

Dependência

porque tudo em mim
depende do ido
depende de sim

porque tudo em mim
mais eco ruído
me sobra aos ouvidos

porque me depende
no tempo e no espaço
porque vida em frente
no vento e no braço
porque sou semente
daquilo que nasço

dependo de tudo
e tudo por fim
também dependente
de muito de mim

domingo, 23 de janeiro de 2011

Noite insone

Em sua última noite insone
você cantou, dançou, bebeu?
Passou frio e passou fome
soube que o filho era seu?
Foi subida inspiração
fogo mandado do céu?

Em sua última noite insone
o que foi que aconteceu?

Foi repetindo a rotina
foi naquela sexta-feira?
Foi delirando sozinha
foi curando a bebedeira?
Foi brigando com a vizinha
foi vestida de enfermeira?

Em sua última noite insone
o que lhe acontecera?

Foi dia de casamento
o romance te prendia?
Comemorou o espetáculo
foi doença na família?
Desmoronou o barraco
engravidaram sua filha?

Em sua última noite insone
o que é que acontecia?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Entropia


falo num idioma que entende noites
e dialoga com estrelas

meu dizer não é meu, é do universo
pois não sou de mim ou de ninguém
fui gerado para romper fronteiras
e só agora me descobri

busco a magia escondida em cumes
e a essência do átomo

semeio e me desfaço lentamente

o risco na pele é um sinal
eu sinto
mudo a cada segundo

(Celso Mendes)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mínimas III

psi

inquietude
de urgência a sede
permeio-dia quente

a falta e tão-somente
o quando se concede

***

eterno principio

além do
mais o que
foice foi

já passou.

****

Qual a pista?

para a fuga
outro impasse
noite quente

eu presente.

****

e dois

Dá-me dama
passe em fácil
vez compasso

charme e infâmia.

****

in

e me disse
leve enlace
faça a face
vide em riste

pôs-se passe
sem limite

***

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Mínimas II

sem doma

de instinto crente
vinha tinta
mistura

espora criatura

consinta
a dente
cura.

****

ciso

sou só refém
do quanto trago
levando a cabo
a mim também

nem só o bem

nem tão culpado

****

pré ferida

era ladeira
refez descida
pôs-me entre tantos

nos pêlos cantos

domingo, 2 de janeiro de 2011

Não sei em qual tempo vai dar
A foz, o leito do amor que me consome
Sei que vai durar
A quantidade de lágrimas que dorme
Na inércia do entardecer
Que a todas as fraturas exuma.

Sei que não é de lágrimas o amanhã
Porisso avanço
Sutil e manso
Adiante.

Sorrisos, tenho às barganhas
Estreitos e precisamente orfãos
Sei que são enxame e jarro
Do palato às esculturas
A flor da seca e das chuvas
Guarda o revés.

E que nada em meu nome
Descanse enquanto dura.

E que nada no viés
Escame perpetuação.

Gota a gota
Perduro.




terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Mínimas

nubla

pois a noite
de sozinha
também sofre

e definha

****

sedna

aflito e relapso
elíptico e ártico
esquecido céu

exausto sepulcro
orbita

****

feito

desenham-se gestos
de voz e conceito
um claro contesto
a puros e eleitos

não raro confesso...

Feito!

****

marés

não vinga o ponto
nem vem a prumo

nunca há desconto
sempre há consumo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Madrigal

Teu beijo e madrugada se eterniza
aflita minha tara
o cheiro de horizonte dessa brisa

Achada rima rara
e a desculpa precisa
o dia se enciúma enquanto aclara

Madruga um beijo o dia fica insone
meu corpo sem acordo

A fome fica enorme quando mordo
e o tempo tem teu nome.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Onde ficarão essas vozes além do pedágio? Do semi-confronto com o cardume de batimentos cardíacos? Onde ficarão essas vozes além do porém? Do sinal? Do estapafúrdio? Do dilúvio? Das escamas da Odisséia e do jornalismo Gonzo? Onde ficará o alfinete? O cabide? A sede? Onde ficará o restante do casaco amordaçado das prostitutas e dos pistoleiros? Onde ficará a saliva? A diva? Onde ficará o horizonte? Onde ficará a barra do trilho? A pessoa que nunca dorme? O anel? O incêndio disforme de abduções multilíquidas? Onde ficarão a criança e a infância? Onde ficará o mordomo? Onde ficarão as hostilidades mansas? Onde ficou o trono? Onde ficará a coragem? Onde ficarão os distúrbios? Onde ficaram os monges? Onde ficarão os verdugos? Onde ficará a beleza? Onde ficará o confronto? Onde ficará a reza? Onde ficará o pranto? Onde ficará a incerteza? Onde ficarão os velocípedes lunares? Onde ficarão os desejos? Onde ficarão os vestígios e as provas rasgadas? Onde ficará a perdição? Onde ficará o gesto? Onde ficará o resto? Onde ficarão as freiras? Onde ficará o pó? Onde ficarão as flores? Onde a gente ficará? Onde ficará a tempestade? A vertigem? A paisagem extraditada? A carta surrupiada? O bilhete de núpcias? Onde ficarão os dotes? Onde ficará a sorte? Onde algo permanecerá?

domingo, 21 de novembro de 2010

Ventania & Ampulheta

Hoje é coração. Amanhã, vilão.

Hoje era apelo, amanhã corrosão.

Cactos na mesa de jantar e cubos de gelo de sobremesa. Ela disse que seria simples, eu quase tive um colapso gengivítico.

Ela disse caramujo; eu desci a praia de tanga, revivendo o doce naufrágio do prisma dívago e cru.

Ela disse espião, eu retomei: hardcore.

Ela me deu sua mão, eu disse: e agora?

Tudo melhorou com o outono, pois estrelas cadentes não têm dormideiras. A nave respondeu meus remendos (usei bandana e fogos de artifício).

Roí a neve e o leme, depois embarquei no rasante do trilho. O trilho não termina.

Isso é um poema até que provem que é um pedido de Habeas Corpus.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Fugazes

Escrevo mentiras verde esmeralda
sobre verdades ocultas.
Escrevo do falso brilho de estrelas cadentes
como rochas riscadas nos olhos
que passam
fugazes
vorazes
sedentas
de fogo
de cinzas
e pó.

(Celso Mendes)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Chiclete de Aluguel

Lá perto das colunas energizadas onde não foi.O verdugo que quando chora se questiona. Se é lugar insalubre se ilude. A mosca passa pelos ouvidos. Quando a queima-roupa não há perigo. Copos de água na mesa de metal. E a goteira. E a figueira. Carnaval dos delinqüentes.Um amontoado de coisas e coisa alguma.Se o tapete persa virou poeira. Embaixo uma voz. E um esqueça. Encima uma noz despencada. No teto rachaduras de papel alumínio. E uma queixa. Uma viela.E O detetive dos insones fumando um cigarro de palha desfigurado. Paragem de neblina. O fim da esquina com prédios semi-apagados. Uma gota de orvalho na orelha.Pegadas que acabam num relógio na sarjeta. Ruga.Negando a vantagem, a trepadeira ígnea subindo o muro horizontal. Feito sussurro inaudível, cicatriz broxa, tumescência da visão. Rompendo o Ártico das falanges desérticas, esquecidas num embrulho da paisagem, tufão.A leva de penugens e misticismos.A caixa que guarda o inseto.O pirata calado numa bóia, por trás da dimensão do oceano rouco.A assinatura bem de leve porque não tem nome.Precipício da porta de saída.Noir.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

do livro comerciais de metralhadora

...

Faço para ti um colar de cobra coral

Orno teus pés com chocalhos de cascavel


tua foto sorri no sorriso da boca do sapo

Oferto teu boneco de vodu às pás do arado


(revivo tuas cicatrizes de criança

reescrevendo o idioma de sua dor)


Selo um verso para ti com a brasa de meu cigarro:

um buraco é o teu ponto final

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Não foi apenas como se eu quebrasse porcelana e agora procurasse remendos para o pó que rasteja da minha alma
Ou quantos suspiros inúteis sugassem a beleza da pétala do tempo, e desse segmento para uma jornada sem buscas
Sem procuras
Um formigamento de andaluzes descalços calçando meu coração

Não foi apenas como se eu juntasse harmonias ocas para tentar tocar outra estrela e meu brilho fosse atravessado por punhais de cristal doce
E quase maligno, mas feroz e quase
Navalha
Que me faz chorar sem geração ou matiz
Que me faz decalcar em tremores imóveis

Não fosse esse rodamoinho estrangulado na minha asa
Esse Narciso degolado na lente do precipício de um verso
E as paisagens que corroboram para um íntimo tão tragado por outro
por um triz.




quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Não fosse o disformismo da imagem traçada
regulada e partida
que faz alumínio parecer prata
e o barulho formar ilusão intocável
nos dois cristais esmigalhados no teto
da inconsciência
& do espanto

Não fosse a voz de reduto
o real pouco plano
no planar do hemisfério
: estardalhaço inconciso

Essa precisão de luar abridor
da sina assanhada perene
a correnteza dos jeitos
no jeito de uma borboleta abolida
de afirmações e da própria altitude

Salto transcendente entre folias
de ausência
Noção de perder a cabeça para cadeia alugada de um dominó
Uma mente que entra na lente macrocósmica
do pensamento imediato e vão.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Cantinho

a alquimia que dá ordem aos pensamentos
e à frigidez da bala
e da agulha
enquanto ao brilho, substância
nenhuma sobra para o descrente

noção que faz o amplo
e o conduz ao que é amplo por ser singelo

construção abnegada de aqui, agora, tempo

sem disparada

ou um grão do que se tenta tocar
do que não vê
e vê a tudo

partilha
um não-reter

fazendo da ótica estertor
do que se esconde
do que é
por orvalhar
e se estender no felpudo do dedo
da esperança

domingo, 25 de julho de 2010

Fronteiras

"Entre mim e a vida há
uma ponte partida...”
(Fernando Pessoa)


tenho navegado sobre duas vidas
duas dimensões
duas fases do tempo

projeções distintas
verdades partidas
mentiras divididas

nesta viagem abstrata
em que a espera
confunde-se com a busca
meu voo é subterrâneo e solitário

eu tenho estado entre dois mundos
entre dois sonhos
entre quatro olhares
trinta e três palavras
infinitas imagens
uma só tristeza
e a única certeza:

do que fui
do que sou
tornar-me-ei
o que me restou

(Celso Mendes)

domingo, 11 de julho de 2010

Jesus

O Caracol foto de rafael nolli

1

Senhor, cantá-lo exige prudência.

Senhor, não: Jesus! Prudência...


Mulheres tremem ao imaginá-lo

e homens se contorcem de medo –


se enfurecem por ti. Por ti são

capazes de tudo, com fúria.


Não os quero diante de minha casa,

ou sobre mim, com suas tochas.


Prudência para não despertá-los,

ajoelhados na primeira fila –


bebendo a palavra suja de kolynos,

encharcada de vinho barato.


2

Estavam equivocados sobre a sua palavra.

Sequer leram os livros. Ouviram


de um profissional, ingênuo do latim:

um animal diante do arado


sendo chicoteado por outro animal:

numa estrada reta, sem cruzamentos.


3

E que não fosse por outro animal.

A palavra em si já trás o equívoco:


abades que excederam no vinho e

se distraíram com ilustrações proibidas;


poetas pequenos, insignificantes,

maus tradutores a serviço do estado.


Para cada povo a palavra tem um peso.

Cada uma, sua carga – nada nos diz algumas:


estão na boca diariamente, já sem sabor,

como chiclete repetidamente mastigado.


Algumas não entendemos.

Outras nossa compreensão estraga.


Estão feridas, cobertas de pus,

muitas sequer foram germinadas.


O equívoco (talvez!) resida no fato de

nenhuma ter saído de sua boca.


Gritam, na rua, em seu nome,

algumas que você sequer conheceu.


4

Quando criança, seu nome pichado no muro –

em neon reluzente, gritando na face das igrejas.


Quando criança, sua marca no quadro-negro,

em adesivos no vidro traseiro dos carros.


Quando criança, sua palavra no rádio,

no pára-choque de pesados caminhões.


Quando criança, sua imagem no quadro:

no quarto de minha avó, um pouco vesgo.


Lembrava um dos generais de Hitler

ou um modelo das propagandas de cigarro.


4

Um homem melhor do que eu,

maior que todos nós juntos.


(O que não é grande coisa,

nem fato de extraordinária façanha)


Um homem, ouso dizer. Apenas isso.

Prudência, o poema exige. E me calo.


*

segunda-feira, 31 de maio de 2010

FIM DE FESTA

Imperceptível no meio da multidão
ando descartável feito coisa.

No fluxo dos comuns sou mais um
nesse momento as cicatrizes
do misantropo que sou me doí
na memória das palavras.

São caminhos sufocantes de andar
contém o banal a mesma estrada...

cravado farpado na dor
esses dias tão repetidos
me agarram pelos cabelos
encharcando-me na mesmice

a mim, resta-me as doses
maciças que ainda tenho
de bocetas na praça do bom fim.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Caixa Preta do Horário Nobre

foto Ricardo Pozzo

As ilusões predeterminadas
pelas falhas
no sistema, que
ao inverso,
sustentam a coesão da estrutura
costurada
pelas 30 polegadas
de imagens
simultaneamente
hiper-reais e abstratas
permitem ainda
que meus sensores neurológicos
percebam a carícia
da brisa, ou da água
que, tragada,
reestabelece a realidade;
ao trovão,
que assombra tanto
a nós quanto
assombrava
a nossos
ancestrais,
ou ao frio e á seca
na descarícia
que irrita a performance
do meu olhar desolado
pelas causas das quais,
nem sabeis o lado,
pertencemos.


Ricardo Pozzo

terça-feira, 18 de maio de 2010

ins-Piração

é de pirar o cabeção,
o coração
...
Só pegar o papel e caneta;
pra desabar na sua cabeça
o Planeta,
com mala e cuia.

Tem que tá ins-pirado pra suportar o Mundo,
Ins-piradíssimo.
Aliás,
A vida também é uma
ins -
ex-
Piração.

O Amor tamém ins-ex pira.
Eu ins-piro com tudo isso.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Fábula Segunda

video


ESOFAGITE


Todas as estatísticas sorriem para mim:
sou um entre as migalhas moídas pelo trânsito

Meu nome corre entre os que matam
por gosto ou dinheiro -
capa de jornal sensacionalista, de ontem,
me explica como serei vítima de latrocínio

Um merda sorri no algodão ariano de minha t-shirt
e é vermelho o papel em que escrevo,
vermelhos os livros de história,
menstruados na estante.

Falo de amor contigo
em meu celular movido a lithium:
você me conta que nosso filho irá se chamar Citotec.

Somos felizes para sempre.



*
Esofagite - do livro Comerciais de Metralhadora
Voz: Luis Gaspar (Estúdio Raposa - Portugal)
Edição: Larissa Marques (Editora Utopia)
*

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Do Caos a Cana

1

Bebendo goles de Vida no Boteco do Mundo
Bebendo bebendo goles e goles de Vida

Diversas mesas,
Nada de fronteiras,
,Pessoas diversas
No mesmo Boteco do Mundo
Bebendo goles de Vida.

Há o ânimo
De encher o copo e o corpo de Vida
Até o bico
, De erguer o copo e o corpo cheios de Vida
E brindar e beber com vontade a Vida.
Morreremos bêbados de Vida nesse Boteco do Mundo.
E viverá bêbado por termos vivido o Boteco do Mundo.

2
Não deixem que fechem esse Boteco,o Mundo!
Não deixem que proíbam o consumo dessa bebida,a Vida!

Matheus José Mineiro

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Velha Guarda

[Sacis & Garibaldis] foto: Ricardo Pozzo


Sai na avenida,
o suntuoso carro
alegórico,
minha requintada
coleção
de horrores,
o versejar
retórico.

Fantasia de
flores químicas,
monocromática
(o sempre
mesmo murro
em ponta de faca).

O samba enredo
minimalista:
a colombina
vigarista,
na cadência
e um pierrot
da incoerência,

estupidamente
clichês


Ricardo Pozzo