quinta-feira, 7 de julho de 2011

Anatomia de um Rio

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Às margens desse rio asfixiado,
habitado pela merda expelida das casas
e o ácido excedente das indústrias,
homens pararam por um instante –
testemunharam seus reflexos no espelho;
outros
velaram toda uma noite atrás de um peixe.

Nessas águas espessas,
violentadas pelo óleo das auto-estradas,
oprimidas pelo caldo dos bueiros,
mulheres lavaram a roupa e as mágoas;
outras se aliaram ao corpo do rio
para ajudar as flores a resistirem ao inverno
e os tomates a se rebelarem contra a seca.

Às margens desse rio viciado,
picado pela agulha dos hospitais,
assaltado pela indigestão dos restaurantes,
meninos caçaram animais que por ali se aventuravam,
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro senão do campo que percorria.



3 comentários:

dade amorim disse...

Rafael, vejo que você se mantém sempre o poeta alerta, ligado à vida e ao desejo de uma vida melhor para todos.
Um grande abraço.

Lou Albergaria disse...

Que bela "crônica" de nosso cotidiano tão poluído, mas que ainda assim, resistimos e buscamos novos ares...

Lindo poema!

Beijos!!!

Concha Rousia disse...

A verdade é que a poesia é fundamental para encontrar as palavras amáveis mas verazes, parabéns por essa força poética, vim aqui atraída pelo nome do seu blog, sempre adorei caleidoscópios, acho que o olhar poético bem sendo isso... um caleidoscopio de som... Gostei muito, seguirei a ler, e voltarei, Abraços, Concha poeta da Galiza.