segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O dono do banco


Sentei-me no único banco da praça que escapava do sol. Aquele que ficava bem de frente para o prédio comercial, um daqueles prédios de vidro escuro, com ar condicionado central, bunkers de proteção contra a liberdade e o ar puro. Ao menos era assim que eu via o prédio onde eu perdia oito horas diariamente, enclausurado.

Naquele horário o sol já estava mais baixo, mas, de terno e gravata, e ainda acostumado ao ar glacial do bunker, qualquer raio de sol ou bafo mais quente parecia derreter-me. Portanto, era convidativo aquele banco à sombra, uma raridade naquele horário, uma vez que a praça estava, como sempre, tomada por crianças saídas da escola e por diversos grupos de aposentados, que pareciam reunir-se ali para contar os vivos e lamentar os mortos. Lembro até hoje do dia em que reparei nisso pela primeira vez. Fiquei na praça até mais tarde, lendo um livro qualquer - provavelmente do Galeano - e vi uma senhora aproximando-se de um grupo e comentando: a Madalena não vem mais. A desesperança daqueles rostos cansados, abalados pela notícia, marcou-me.

Alguns instantes depois de sentar-me, mal havia dado tempo de encontrar uma boa posição para as pernas - já que só tinha tentado duas até aquele momento, um senhor veio caminhando em minha direção e disse:

- Você não tem outro lugar melhor para sentar?

Entendi aquilo como uma clara tentativa de tirar-me dali, mas decidi não abrir mão facilmente do meu lugar à sombra:

- Na verdade, tenho, mas nesse momento prefiro ficar aqui. Por quê?

- Esse é o melhor lugar para ver o pôr-do-sol.

- O senhor deve estar brincando, não é? Esse prédio enorme encobre tudo!

- Encobrir ele encobre, mas eu ainda consigo lembrar de tudo.

- Se o senhor vai imaginar, pode sentar-se em qualquer banco, são todos iguais.

Quando eu disse que eram todos iguais, ele franziu o cenho e elevou o tom de voz:

- Esse banco é diferente e esse banco é meu, seu moleque atrevido!

Diante da ofensiva, decidi não abandonar o barco e, muito menos o banco, rebati sem exaltar-me, ainda que infantilmente:

- É seu é? Por acaso tem seu nome escrito? Esse banco é público e eu não vou sair.

Percebendo minha teimosia, aquele senhor há instantes emburrado, estampou no rosto a desesperança marcante daquela mesma praça e disse, já virando as costas:

- Na verdade, tem.

Antes que ele se afastasse, afetado por aquela imagem, levantei-me e olhei para o banco. Tive que procurar um pouco, mas encontrei. Bem no meio do encosto, entre assinaturas com caneta bic e corretivo, estava talhado na madeira, bem fundo, um coração preenchido com dois nomes. Corri atrás daquele senhor, que já havia cruzado metade da praça, coloquei minha mão sobre aquele ombro curvado e disse:

- Seu Luis, me desculpe.

Um comentário:

Larissa Marques disse...

como é bom ler-te, Domit!