quarta-feira, 7 de outubro de 2009

POBRE DIABO



Elisa matou o marido às duas. Isso é o que constava no processo. No depoimento ao delegado disse categoricamente: "foi o diabo". Acontece que o tal comissário de polícia era uma daquelas figuras ecumênicas, que vai aos terreiros, missas e cultos. Então decretou: "o diabo precisa se pronunciar". Expediu a intimação. O responsável pela entrega anunciou aos quatro cantos que precisava entregar a intimação ao demônio, mas não sabia onde encontrá-lo.
O diabo, sempre solícito, compareceu à delegacia aos saber dos burburinhos. Defendeu-se argutamente, disse que as acusações eram infames oriundas de uma mente doentia que pretendia tão-somente manchar sua reputação ilibada. Foi ao banco dos réus. Advogado de si mesmo. Recorreu a livros de Freud, Marx, Sartre, Descartes, Hobbes e Rousseau. Até a Augusto Cury. Estava difícil. Condenado à prisão perpétua por assassinar a sangue frio, com 17 facadas no peito, o cônjuge de Elisa.

Elisa vive bem com os filhos e o atual esposo, leiteiro há duas décadas da vizinhança. O Sujo cumpre pena em regime fechado. Desde então, sem o diabo para equilibrar as coisas, o mundo se tornou um caos.
Antonio Junior

2 comentários:

Larissa Marques disse...

Pessoas, pra quem não conhece: Antônio Alves é meu confrade, e grande incentivador de minha escrita, bem antes de ser editada.
É um prosista de qualidade ímpar e traz em sua escrita a marca inquietante dos grandes.
Obrigada, Antônio por aceitar meu convite e sê bem vindo!

Luciana disse...

Gostei da forma como foi encaminhado o texto,de como vc escreve.
Mais será que sem o diabo as coisas se tornariam caos mesmo?rs
Creio eu que não.