segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Outro

Duvide, minha amiga, de quem diga que ando desgovernado, que vago pela madrugada paulistana com garotas de fama aquém de ilibada. Haverá um engano decerto, que de pronto nego. Quem apronta dessas, garanto, não sou eu, quase santo. É o meu alter-ego.

Onde já se viu tão vil injúria? Alguém dessa estatura, da linhagem mais pura, habituado a jantares de doze talheres, frequentar esses bares com essas mulheres? Pare. Ouça. Ainda paira, moça, o último eco do silvo da flauta. Não são minhas as faltas. E, rápido, conto: "é o sátiro". E pronto.

Acha possível que alguém como eu, um lorde, assim se porte? Perdido, sem norte? Em vez de vernissages, concertos, museus e quartetos de cordas, passar a noite nas rodas dos guetos, nos seus becos? Bobagem. Olha para trás, para baixo; vê as pegadas? Eu calço sapatos de cromo e, às vezes, coturnos. E esses rastros são dos cascos desse animal noturno, o fauno. Juro.

Isso não existe. Percebe? Um membro da elite não se envolve com a plebe. Nem se permite ser visto em qualquer inferninho de mau gosto.Isso é de mim, afinal, o oposto. Preste atenção, é importante. Isso só acontece quando me distraio por um instante e Pã aproveita e assume o volante.

4 comentários:

Ruy disse...

Entrou na seara da prosa rimada pela porta da frente, e é recebido com honras. Maravilhoso o texto, conteúdo e ritmo.

Maria Júlia Pontes disse...

Esse texto realmente é muito bom Allan, faço coro com Ruy.
bj

FláPerez (BláBlá) disse...

esse texto sempre me causa corredeira-mais-que-aquecida nas veias qdo leio.
não só pelo assunto, como pela construção.

Luciana disse...

Ah é?
Todo mundo deveria usar desculpas assim as vezes né?Daí ninguém poderia julgar,reclamar.rs

Muito bom!