terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dose

O fogo cozinha e imola
A água sacia e afoga
A faca fatia e assassina
A bala adoça e enterra.

A terra te seiva e acolhe
Curare te mata e te cura
Até lapidar tem sentidos diversos
Em versos serás escultura
Em pedras seria tua morte.

Um beijo de Judas te acusa
Um beijo na testa te afaga
Amores, cuidados, carinhos
Afagos, cafunés, meneios
São sempre iguais esses meios
De acolher e de matar.

Segure na mão do amado
Na mão do guilhotinado
Oferte o cigarro ou o trago
Aos olhos vendados
Do ser a ser fuzilado.

Não é o que sempre parece
A mesma poção, mesma pose.

Me olhe nos olhos e diga
Que tudo é remédio e veneno.

A diferença é a dose.

5 comentários:

Maria Júlia Pontes disse...

" a diferença é dose"
fechamento impecável.
ameiiiiii

Larissa Marques disse...

pois é, talvez seja a alquimia mais concreta que conheço!
poema padrão Ruy!

L. Rafael Nolli disse...

Um belo poema com um ótimo arremate!

Magmah disse...

descobri que já reconheço teus versos, ates de ler que foste tu que postaste, Ruy, e que sempre gosto deles. :)

Celso Mendes disse...

Muito bom mesmo. Na dose certa!