domingo, 24 de janeiro de 2010

A casa




Dos homens que a ergueram

não restam sequer testemunhas:

um pó de memória que seca a garganta.


De como retiraram o barro das distâncias

e o emularam em célula não restou a sujeira

nas roupas ou o câncer que os consumiu.


De como em fornos cozinharam os miolos

e o caldo das montanhas, nada sobrou:

talvez uma ficha em arquivo de manicômio

ou uma cratera que junte água salobra.


De como chegavam a seus lares –

felizes por ainda terem os dentes na boca –

nada se sabe. Se há quem o recorde,

não há de dizer algo que valha.


De como suportavam as horas

– tendo um copo de lágrima e

um cão para lamber as feridas das mãos

– coisa alguma se relata:

ninguém anotou nada em lugar nenhum.


Por certo, os filhos dos que a ergueram

virão derrubá-la.


Disso, todos são testemunhas.


*

Um comentário:

Larissa Marques disse...

passando para olhar o blog e me defronto com esse texto-poema, declino-no ao talento de Nolli.